Presença do sagrado, transcendência e transdisciplinaridade

Artigo: Presença do sagrado, transcendência e transdisciplinaridade


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Por Celso Pessanha Machado, FRC

O sagrado foi e é objeto do meu interesse acadêmico pela compreensão de que ele é um elemento característico da condição humana, e podemos verificar a sua presença em diversas manifestações, que inspiraram algumas análises que fiz, durante meus estudos de doutorado.  Minha tese de doutorado foi construída a partir do tema da transdisciplinaridade, que foi produzida e apresentada no programa de pós-graduação da Faculdade de Física da PUCRS. Os físicos contribuíram muito na fundamentação da transdisciplinaridade, argumentando com base na física quântica, fato que muitas vezes não é considerado por autores que não se aprofundam no tema, e o confundem com interdisciplinaridade. Na época da defesa da tese, uma professora integrante da banca, comentou, para minha satisfação, que o meu texto poderia ser apresentado como tese em outros programas, como em uma faculdade de filosofia, por exemplo, opinião que deixou claro que a tese tinha sido elaborada de acordo com o que imaginei. Os meus escritos propuseram 11 indicadores de atitudes transdisciplinares (MACHADO, 2016), para servir de norte para pesquisas na área, pois há muita dificuldade para delinear investigações sobre a temática. Um desses indicadores foi a “Presença do sagrado”, proposto, como os outros, a partir de uma revisão literária sobre o assunto, onde pude perceber a importância dada por inúmeros teóricos da transdisciplinaridade à relação entre os humanos e o transcendental.

Numa tentativa de apresentar claramente o tema, começo pela exposição da lógica do terceiro incluído, essencial para a compreensão da transdisciplinaridade, e da relevância da presença do sagrado.

O terceiro incluído        

A percepção do que denominamos mundo real esteve fundamentada durante muito tempo em uma determina lógica de compreensão da realidade, que foi transformada, de acordo com Nicolescu (2005), pelo estabelecimento da mecânica quântica. Nicolescu afirma (ibidem, p.25) que a lógica matemática clássica está baseada em três axiomas:

  • Axioma da identidade: A é A;
  • Axioma da não contradição: A não é não A;
  • Axioma do terceiro excluído: não existe um termo T que é, ao mesmo tempo, A e não A.

Com o advento da mecânica quântica e a observação de comportamentos que não obedecem à lógica descrita, deriva uma nova lógica, que, de acordo com Nicolescu (2005), possibilita o axioma denominado por ele de terceiro incluído:

* Há um termo T, que é simultaneamente A e não A, em diferentes níveis da realidade.

O tempo é um bom exemplo das consequências desse novo axioma, pois no nível macrocósmico esta grandeza física pode ser concebida como uma flecha que aponta num sentido irreversível, enquanto no nível quântico não se conseguiu instituir um sentido único para o tempo – ele é concebido como reversível (HAWKING, 1988; JUNG, 1991; MILLS, 1994; HILLMAN, 1996; HAWKING; PENROSE, 1997; SCHRÖDINGER, 1997; DAVIES, 1999).

Intui-se, portanto, a existência do terceiro incluído, abrindo um caminho para a dissolução das contradições e a existência de diferentes níveis de realidade que definem um tempo simultaneamente irreversível e reversível, conforme o nível de realidade seja macroscópico ou microscópico, respectivamente. Para integrar os níveis de realidade é preciso repensar os saberes. Para Morin (2011), os fenômenos se compõem de uma rede de informações, numa estrutura complexa que rompe com o conceito linear e admite o multidimensional. Uma rede universal estrutura os níveis de realidade por meio de interações que vão da ordem para a desordem, da desorganização para a organização, gerando novas interações que se sucedem indefinidamente. Nicolescu (2005) afirma que o indivíduo está inerte entre a simplicidade das partes e a complexidade das relações, como um assistente paralisado, que não sabe qual o seu papel na nova lógica. “Falta o terceiro incluído: o próprio indivíduo”, no qual as contradições são integradas (NICOLESCU, 2005, p. 29). Pereira (2014) ressalta que para que haja interdisciplinaridade deve haver antes uma disciplina. Transferindo a afirmação para o conceito da transdisciplinaridade fica evidente, pela etimologia das palavras, que devem existir disciplinas para ser possível transpô-las. Neste texto não é defendida a ideia de eliminação das disciplinas. A busca é pelo reconhecimento de características individuais que indiquem que o sujeito disciplinar está apto para a transposição das disciplinas, acessando as conexões que levam a novas percepções entre o eu e o entorno. Para tanto, o sujeito transdisciplinar deve flexibilizar o território de sua disciplina – “a disciplinaridade deve ser praticada como (des)territorialização e (re)territorialização produzidas numa ordem de imanência, isto é, relativas a um Universo de referência ele mesmo intrínseco” (PEREIRA, 2014, p. 116). O indivíduo precisa reconhecer as conexões existentes entre ele e o Universo para compreender a relação entre suas decisões, seus atos e os acontecimentos futuros, percebendo-se inserido no todo. A construção de percepções internas que gerem atitudes transdisciplinares pode contribuir para a inclusão do indivíduo na nova lógica citada por Nicolescu (2005).

Para gerar essas atitudes transdisciplinares, propõe-se como um dos elementos fundamentais a presença do sagrado, como veremos na próxima seção.

Presença do sagrado

O indicador a presença do sagrado, é entendido como“[…] a presença de algo irredutivelmente real no mundo.” (NICOLESCU, 2011, p. 59). A não presença do sagrado, para Nicolescu (ibidem), está na raiz do totalitarismo, levando a situações em que a vida perde completamente seu valor, conduzindo povos a caminhos sombrios, como os dos campos de concentração nazistas de Sobibor, Treblinka ou Auschwitz, que tinham a finalidade de exterminar populações inteiras. O stalinismo também foi um sistema totalitário no qual ficou evidente a subtração do sagrado, pois milhões de cidadãos soviéticos foram mortos ou encaminhados ao sistema prisional do Gulag, onde realizavam trabalhos em condições precárias (NICOLESCU, 2011, p. 60). Atualmente, podem-se ver os efeitos da ausência da percepção transdisciplinar nos atos terroristas de fundo religioso e étnico, cuja raiz está fincada numa interpretação teocrática e estreita de como deve ser o mundo, com oposição violenta ao pensamento divergente. Em acréscimo, D’Ambrosio (2001) afirma que muito do que não é admitido no comportamento juvenil tem vínculos com crises de espiritualidade. Ele defende a posição de que a abordagem religiosa nas escolas deva referir-se a assuntos vinculados a temas contemporâneos, como sexo e uso de drogas, e ainda os problemas existenciais permanentes, como as questões de vida e morte (D’AMBROSIO, 2001, p. 149).   O conceito de transreligiosidade é proposto por Nicolescu (2011) ao afirmar que existem estruturas comuns nas religiões que as transcendem, e que seu estudo pode levar à compreensão do que é permanente, não impedindo a apreciação das diferenças entre as manifestações religiosas, que as tornam mais ricas como manifestações das culturas humanas (NICOLESCU, 2011, p. 61).

Alguns movimentos dentro das religiões procuram o encontro de temas comuns para buscar aproximação e diálogo. Segundo Lubich (1986), o movimento católico Focolare foi criado a partir da expressão do Evangelho “Que todos sejam um”. Em busca da concretização da frase, os focolarinos buscam descobrir em outras religiões textos com mensagens similares aos do Novo Testamento, para que possam comungar a palavra (LUBICH, 1986). As iniciativas dos Focolares permitem, por exemplo, aproximações com setores do Islã, como a experiência que viveram com o Imã W. D. Mohammed. O Imã e Lubich mantiveram um diálogo intenso, que culminou com a visita da focolarina à Mesquita Malcolm Shabazz (também conhecido como Malcolm X), localizada no Harlem, em Nova Iorque. Na ocasião, Lubich falou aos muçulmanos e cristãos presentes sobre os pontos em comum às duas religiões, sendo interrompida de vez em quando por aplausos e gritos de Deus é grande (MOVIMENTO DOS FOCOLARE, 2008). Este é um dos indicadores da transdisciplinaridade mais difíceis de serem detectados nas ações de uma pessoa, pois, por princípio, a manifestação externa da consciência do sagrado pode ser facilmente confundida com a espiritualidade extrínseca. A primeira é uma atitude, enquanto a segunda é um gesto. Mas, como as almas são incomunicáveis, é pelos gestos que se alcança saber algo do outro.

Este indicador, portanto, exige do observador o uso da intuição, por isso como metodologia de análise da tese foi utilizada a Interpretação essencial Sintética – IES, que tem alguns elementos oriundos do budismo, pois busca retirar as não verdades impermanentes do discurso e das atitudes do indivíduo, procurando nas profundezas das palavras e dos atos o que permanece, e que se propõe definitivo enquanto durem as razões pelas quais se estabeleceu no sujeito.

Manifestações do sagrado

Onde o sagrado se manifesta? Bem, isso poderia ser tema de outra tese de doutorado, portanto vamos apenas indicar alguns itinerários possíveis, cada qual com suas próprias implicações. Essas manifestações estão nos ritos próprios de cada denominação religiosa, nos textos sagrados produzidos por indivíduos impulsionados por uma força que extrapola nosso universo, e também nas expressões não-faladas produzidas pela matemática e geometria presente no cosmos, na qual humanos de sucessivas gerações se inspiram para compor uma representação do eterno no nosso cotidiano perene.

Referências Bibliográficas

D’AMBROSIO, Ubiratan. Transdisciplinaridade. São Paulo: Palas Atena, 2001.

DAVIES, P. O enigma do tempo. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.

HAWKING, Steven. Uma breve história do tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

HAWKING, S., PENROSE, R. A natureza do espaço e do tempo. Campinas: Papirus, 1997.

HILLMAN, J. O código do ser. Rio de Janeiro: Objetiva, 1996.

JUNG, Carl Gustav. Sincronicidade. Petrópolis: Vozes, O.C. VIII/3, 1991.

LUBICH, Chiara. Que todos sejam um. São Paulo: Cidade Nova, 1986.

MACHADO, Celso Pessanha. Indicadores de transdisciplinaridade: ensaio da identificação e evidências na narrativa e atuação de professores de ciências e matemática. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em Educação, Ciências e Matemática. Faculdade de Física – Pontifícia Universidade católica do Rio Grande do Sul, 2016.

MORIN, Edgar; KERN, Anne Brigitte. Terra pátria. Porto Alegre: Sulina, 2011.

MILLS, R. Space, time and quanta. New York: W. H. Freeman, 1994.

NICOLESCU, Basarab. O manifesto da transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 2005.

___________________. Educação e transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 2011.

PEREIRA, Marcos Villela. Sobre interdisciplinaridade e diferença: Um debate filosófico. Revista Sul-Americana de Filosofia e Educação, n. 22, p. 108 – 128, mai /out. 2014.

SCHRÖDINGER, E. O que é a vida? São Paulo: UNESP, 1997.