Museu – O crocodilo como divindade no Egito Antigo

Por Ewerson Dubiela

Para os antigos egípcios tudo o que existia era fruto dos deuses. Sua fauna, sua flora e até mesmo as pessoas foram criadas e eram regidas pelas divindades. Cada deus representava uma condição da natureza. Vamos abordar um deus em específico, que não diferente de outros deuses egípcios, era representado como um ser antropozoomórfico (forma humana e animal) ou zoomórfico (apenas na forma animal). Primeiro, precisamos entender que para aquela população, os deuses viviam na Terra, no mesmo cenário que os homens. Os templos eram construídos para o culto aos deuses, eram as moradas divinas. Dentro deles havia estátuas que eram veneradas e todos os dias eram lavadas e perfumadas, vestidas e alimentadas, pois se acreditava que o Bá do deus, ou o que entendemos por alma, ali encarnaria e, portanto, precisaria de cuidados.

A mesma ideia ocorria com o animal que era associado ao deus. Assim era com Sobek, o deus crocodilo, adorado principalmente nos templos do Fayum e de Kom-Ombo. Esta divindade era relacionada à violência, sexualidade e instabilidade da personalidade, portanto, propenso aos desejos mais primordiais. O seu nome, Sbk, apesar da grande discussão no meio acadêmico para seu significado, acredita-se estar relacionado ao verbo “Impregnar” devido à fertilidade do animal. No Reino Antigo, Sobek era chamado, em textos religiosos, de “O Raivoso”, posteriormente, durante o Reino Médio, foi associado ao poder faraônico por conta de sua habilidade em agarrar sua presa subitamente e destruí-la de forma única.[1] Como veremos no próximo parágrafo, esta é uma condição natural do animal que, pela interpretação dos antigos egípcios, se comparava ao faraó arrebatando e destruindo seus inimigos da mesma forma.

A espécie Crocodylus Niloticus pode medir quase cinco metros de comprimento, atingindo em terra 14 km/h e, 30 km/h na água. Alimenta-se, quando adulto, de grandes animais que consegue capturar com seu poderoso ataque, não matando de imediato, mas levando a captura para a água, aonde deixa esta afogar-se e espera até que a carne amoleça. Para arrancar a carne, utiliza a sua mandíbula para girar na água, fazendo o “giro da morte”. Tente agora imaginar que este mesmo espécime, adulto, também poderia viver dentro de um templo, movimentando-se livremente pelo espaço, porém, todo enfeitado! E não obstante, ainda se tinham criadouros destes gigantescos e perigosos animais dentro do próprio templo. Os gregos Heródoto e Estrabão visitaram o Egito e relataram tais cuidados com os crocodilos, o primeiro escreveu:

Parte dos egípcios (…) que habitam as vizinhanças de Tebas e do lago Moéris têm pelos referidos anfíbios muita veneração. Escolhem sempre um para criar e domesticar. Enfeitam-no com objetos de ouro ou com pedras falsas e colocam pequenas correntes ou braceletes em suas patas dianteiras. Nutrem-no com a carne das vítimas e lhe dão outros alimentos apropriados. Enquanto ele vive, cercam-no de cuidados; quando morre, embalsamam-no e depositam-no numa urna sagrada.[2]

Como na estátua, o animal também possuiria o Bá do deus, e por isso era mantido e adorado, não existem registros de sacrifícios humanos para a divindade, apesar de saber-se da existência do ataque destes répteis durante o cotidiano nas bordas do rio. Nas artes, Sobek, era representado como um crocodilo por inteiro ou por um homem com cabeça de crocodilo com uma coroa em formato de plumas. Porém, existem outros deuses que tinham representações associadas ao animal, como as deusas Taueret e Âmit. Por que estas duas deusas também eram associadas ao crocodilo? Se observarmos como a mamãe crocodilo trata seus filhotes, conseguiremos identificar uma criatura extremamente gentil, assim como o papai crocodilo, que fica por um tempo protegendo sua ninhada junto com a fêmea. Talvez por isso, os egípcios tenham assimilado a deusa Taueret com este animal. Ela era relacionada ao nascimento, representada como uma mulher grávida, com cabeça e pernas de hipopótamo e costas e cauda de crocodilo.

Quanto à Âmit, o Livro dos Mortos nos mostra que era um animal sagrado, que devoraria as almas daqueles que não tivessem seguido os princípios dos deuses em vida. Ela é representada por três animais, a cabeça de crocodilo, o corpo de um leão e as pernas de um hipopótamo. Vejamos que são três animais que atacavam os humanos e trazem uma ideia de terror. O fato é que, o poderoso réptil, bem como outros animais, acabava sendo associado aos deuses, muitas vezes por suas atribuições naturais, que o povo nilótico julgava como manifestações divinas.

[1] HART, George. The Routledge Dictionary of Egyptian Gods and Godesses.New York. USA. Taylor & Francis Group. 2ªEd. 2005.
[2] Heródoto, História: II, 229. Apud: Locks, Martha & Santos, Moacir Elias. Templos, Crocodilos e Múmias: Ex-votos de Sobek da coleção do Museu Nacional. In: Revista UNIANDRADE / Centro Universitário Campos de Andrade – v.6, n.1, 2005. Curitiba: UNIANDRADE, 2005.